Chuvas de verão

O Sistema Elétrico Brasileiro é caracterizado como um sistema hidrotérmico, ou seja, constituído por usinas hidrelétricas, térmicas e de outras fontes alternativas. Em março/2017, cerca de 80% da energia elétrica do Sistema Nacional Interligado (SIN) foi gerada a partir de usinas hidrelétricas. Portanto é correto afirmar que a geração de energia elétrica do País depende, predominantemente, do regime de chuvas nas bacias hidrográficas.

O regime de chuvas no Brasil é diversificado e complementar, em razão da grande extensão do território brasileiro. As regiões Sudeste, Centro-Oeste e parte do Norte (bacia hidrográfica do Rio Tocantins) tem o período chuvoso no Verão, enquanto que o extremo Sul do País tem os maiores volumes de chuva no Inverno. Já o Nordeste possui o clima semiárido, com estação chuvosa concentrada em poucos meses e com baixos volumes de chuva. O litoral dessa região possui ventos fortes, que favorecem a geração de energia por fonte eólica.

Devido a essa complementariedade climática, o SIN possui interconexões elétricas entre as regiões e, por isso, a energia gerada em usinas com abundância em água pode ser realocada. Essas interconexões tornam o fornecimento de energia mais eficiente e menos vulnerável a eventuais restrições de ofertas regionais. Entretanto, durante o inverno, a maior parte do território brasileiro vivencia o período seco e mesmo com a disponibilidade de transferência de energia a partir das usinas do Sul, torna-se necessário utilizar a agua armazenada nos reservatórios para atender o consumo.

O submercado SE/CO (Sudeste e Centro-Oeste), como denominamos no setor elétrico, detém o maior reservatório, com cerca de 70% da capacidade total de armazenamento do SIN. Os maiores reservatórios dessa região estão localizados entre o sul de Minas Gerais, norte de São Paulo e sudeste de Goiás, conforme figura abaixo. A recuperação desses reservatórios ocorre entre o final da Primavera e o decorrer do Verão, normalmente entre novembro e abril, pois nesse período chove cerca de 80% do volume de precipitação total anual.

Esse ano a recuperação dos reservatórios do SIN deve ficar abaixo de 8%, sendo que nos últimos 15 anos foi 30%. Essa situação decorre das chuvas observadas muito abaixo do esperado para o período. Quando se analisa o período de dezembro de 2016 a fevereiro de 2017, verifica-se um déficit de 40% nos volumes de precipitação em relação à média climática. Essa condição, de chuvas abaixo da média para o verão,  vem sendo observada desde 2012 e, além de trazer prejuízos para os reservatórios, altera as características do ciclo hidrológico da bacia, pois gera uma redução sistemática da umidade no solo. Dessa forma, para haver um aumento da vazão do rio próximo ao normal, o volume de chuva deve ser maior para suprir o déficit de água no solo, situação que ainda não se normalizou.

O indicador que melhor representa a quantidade de energia elétrica que pode ser gerada a partir da vazão dos rios é a Energia Natural Afluente (ENA) que, no Verão de 2017 registrou, em média, o 9º pior registro do SE/CO desde 1931. No entanto, essa condição hidrológica muito desfavorável já foi observada anteriormente no início das décadas de 50 e 70, e houve recuperação no início das décadas seguintes, o que demonstra que o quadro atual pode ser revertido.

Para superar as adversidades climáticas, o sistema brasileiro utiliza-se de energia elétrica proveniente de usinas movidas a combustíveis fósseis (termelétricas). Esse tipo de fonte de energia possui um custo maior para o consumidor e são mais poluentes, mas garante o atendimento do consumo. Desde 2012, o Brasil tem utilizado esse dispositivo de forma intermitente, sendo que em 2014 e 2015 seu uso foi mais expressivo.

Em 2017, a tendência é que os preços fiquem elevados em função do alto volume de geração térmica, consequência da situação hidrológico desfavorável. As previsões climáticas indicam a possibilidade de formação de El Niño, o que favorece as chuvas na região Sul do País, principalmente nas estações Inverno/Primavera. Esse cenário pode reduzir os preços, de forma pontual, além de contribuir para que os reservatórios não atinjam níveis tão críticos ao final do período seco, que ocorre, normalmente, no final de novembro.